segunda-feira, 1 de maio de 2017

O Livro de Memórias

Título: O Livro de Memórias
Título Original: The Memory Book
Autora: Lara Avery
Editora: Seguinte
Ano: 2016
Páginas: 392
Tradução: Flávia Souto Maior
Livro: Skoob
Sinopse:
Sammie sempre teve um plano: se formar no ensino médio como a melhor aluna da classe e sair da cidade pequena onde mora o mais rápido possível. E nada vai ficar em seu caminho — nem mesmo uma rara doença genética que aos poucos vai apagar sua memória e acabar com sua saúde física. Ela só precisa de um novo plano. É assim que Sammie começa a escrever o livro de memórias: anotações para ela mesma poder ler no futuro e jamais esquecer. Ali, a garota registra cada detalhe de seu primeiro encontro perfeito com Stuart, um jovem escritor por quem sempre foi apaixonada, e admite o quanto sente falta de Cooper, seu melhor amigo de infância de quem acabou se afastando. Porém, mesmo com esse registro diário, manter suas lembranças e conquistar seus sonhos pode ser mais difícil do que ela esperava.

Infelizmente, essa não será uma resenha 100% positiva.

Sammie tem um sonho. Ingressar na universidade de Nova York. Ela dedicou sua vida estudando para os debates que garantiriam a ela uma vaga na universidade desejada. Além disso, ser a oradora da turma na formatura contava bastante.

Mas Sammie não sabe se vai mais conseguir isso. Não sabe se vai conseguir se lembrar das respostas. Não sabe se vai se lembrar de onde está, e quem são as pessoas ao seu redor, porque ela tem Niemann-Pick C.

NP é uma doença genética constituída pelos tipos A, B e C. Sammie tem NP-C, uma patologia em que o colesterol se acumula no fígado e no baço e, consequentemente, provoca obstruções no cérebro. Os sintomas são gradativos e envolvem falta de controle muscular, fala arrastada e perda de memória que leva a demência. A expectativa de vida dessas pessoas varia, mas pela idade de Sammie, significa que seu corpo é batalhador por estar aguentando há tanto tempo sem apresentar sintomas. A tia-avó de Sammie falecera pela doença, e ela sabia que seu destino era o mesmo.

Sammie sempre contou com seu cérebro. Ela não se importava em não ser popular ou em passar as noites estudando ao invés de ir para festas. Ela só precisava que seu cérebro funcionasse. Como era possível em um instante ela ter uma memória de elefante, e no instante seguinte ela não se lembrar nem de onde está?

É assim que as crises acontecem. Seus pais são protetores e temem pela saúde da filha. Eles a levam periodicamente ao médico, que aconselha Sammie a abandonar a escola.

Mas porque? Porque, se sua mente e membros ainda funcionavam perfeitamente? Porque ela deveria abrir mão de todos os seus sonhos? Ela estava viva e consciente. E pelo tempo que estivesse, Sammie decidiu que lutaria. Não deixaria a doença vencer tão fácil. Ela não ia ser uma daquelas garotas doentes e depressivas. Ela ia aproveitar o resto de sua vida da melhor maneira possível.

Os médicos concordam, relutantes, mas com a condição que Sammie esteja sempre acompanhada de um socorrista para acudi-la em eventuais convulsões e paradas cardíacas.

Além de se esforçar mais ainda para o debate que está chegando, Sammie resolve experimentar da vida adolescente. Vai para festas com a amiga de debate Maggie, retoma a amizade com seu vizinho e amigo de infância Cooper, e se declara para Stuart, o cara por quem ela sempre foi afim.

Sammie queria guardar todas essas lembranças. Queria contar para a Sammie do futuro que ela fora feliz. Então, por isso, ela escreve um diário/livro de memórias direcionado à Sammie do futuro, relatando tudo o que aconteceu desde a descoberta da doença. Talvez um dia ela fosse precisar do diário para se lembrar de quem ela era.

- Talvez a gente dependa demais de outras pessoas para definir o que é sucesso - Stuart disse. - Tipo, talvez a gente compartilhe demais as coisas. Talvez seja por isso que coisas boas perdem um pouco a graça, porque sempre revelamos tudo.
- Você quer dizer que o sucesso pode depender do fato de as pessoas notarem ou não algumas coisas que fazemos?
- Isso mesmo. Essa é a parte engraçada de nos importarmos tanto com as coisas - ele disse. - Temos que nos acostumar com a ideia de que ninguém se importa tanto quanto nós porque... adivinha? Ninguém se importa. Sucesso, fracasso, tanto faz! Ninguém vai te dar um tapinha nas costas por passar todas as horas do dia estudando ou pesquisando ou desistindo de tudo para escrever. Então o ideal seria fazer todas essas coisas por nós mesmos, não pelos outros.

Peguei O Livro de Memórias para ler por causa de milhares de resenhas positivas que vi pela blogsfera. Eu sou masoquista e adoro esses livros sick-lit que nos fazem sofrer, e pela premissa é de se esperar uma história emocionante, mas talvez eu não estivesse num bom momento para a leitura, porque ela não me comoveu. Com a doença, sim, mas com a protagonista, não. A menina está perdendo a memória, caramba!. Eu sei. Mas eu enxerguei muito mais o lado dos pais do que o dela.

A Sammie parece às vezes um pouco egoísta e irracional. Ela sabe o que está por vir, e insiste no sonho da faculdade. Não há nada errado nisso, só que a teimosia machuca seus pais. Eles são tão bons, tão preocupados, e querem manter a filha em segurança a todo custo, mas a Sammie só sabe discutir com as decisões deles. Acho que querer aproveitar o tempo que resta é uma coisa, mas ela precisava compreender a gravidade de sua doença. Ela poderia se perder. Ela poderia num estalar de dedos não se lembrar mais quem eram aquelas pessoas ao seu redor. Mas é aquela história de ver pra crer.

Meus pais são exatamente como os da Sammie. Extremamente protetores e preocupados, e por isso eu os vi no lugar dos pais da Sammie, e sei o quanto uma palavra errada poderia magoá-los. Acho que Sammie tem razão e direito de lutar pelos seus sonhos, sim, mas com certas limitações e precauções. É claro que pra Sammie também é difícil ver todos os planos pro futuro sendo destruídos, então é como uma balança. Os pais realistas demais com a situação, e ela colocando uma venda nos olhos para fingir que a doença não existe e que vai acabar tudo bem.

Às vezes a vida é só terrível. Às vezes a vida te dá uma doença estranha.
Às vezes a vida é muito boa, mas nunca de um jeito simples.

Entrando em outro ponto, o romance com Stuart e a amizade com Cooper. Enquanto lia, não conseguia parar de pensar que se não fosse pela doença, ela não conversaria com Cooper na igreja, muito menos engataria numa relação com Stuart. Nada mudaria. Às vezes tudo o que precisamos é de um segundo de coragem.

Inclusive, partindo desses dois personagens próximos da Sammie, me fez pensar que a autora fantasiou um pouco. Todo livro sick-lit é meio assim, né? A menina não tinha amigos, e de repente surge quase um triângulo amoroso. É forçar a barra.

O maior ponto positivo está na narração. Em formato de diário, mas sem datas marcadas, Sammie conta as partes mais importantes do seu dia. E como ela não anda sem o diário por perto, temos passagens também em que ela escreve no meio da crise, então conseguimos sentir claramente o seu pavor. Para situar o leitor, ou a Sammie do futuro, ela conta mais sobre seus pais e os três irmãos. Faz uma biografia deles e descreve como imagina que será o futuro deles. Os irmãos são muito fofos e engraçadinhos. Devido à forma de narração, conseguimos nos sentir muito mais próximos da Sammie.

E se for apenas o começo da uma série de fracassos?
E se for tudo o que sou?
E se for o fim?

A história é bonita e dolorosa de acompanhar enquanto a doença vai se apoderando aos poucos de Sammie. Uma garota que tinha um sonho impossível, e que por fim viveu um sonho muito melhor em seus dias restantes. Uma garota com um terrível destino, mas pra qualquer um que ler seu diário, pode ter certeza de uma coisa. Ela foi amada.

Nota: 4


Sobre mim: Carolina Rodrigues, 21 anos, biomédica. Adora dançar e ir pra praia, mas o que a faz realmente feliz é poder passar um dia inteiro lendo, vendo séries, escrevendo histórias ou ouvindo música.

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